Mostrar mensagens com a etiqueta Neuchatel 2011. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Neuchatel 2011. Mostrar todas as mensagens

3 de Setembro de 2011

"Wake Wood" por Nuno Reis


Poucas coisas serão piores do que perder um filho. É sobre esse temido assunto que mais uma vez o cinema de terror se debruça nas duas propostas irlandesas que o MotelX apresenta este ano. Enquanto em “Outcast” uma mãe foge com o filho para o manter a salvo, em “Wake Wood” os pais não conseguem fugir da morte da filha.

Patrick e Louise eram um casal feliz com uma filha até que no dia do aniversário ela é brutalmente atacada por um cão. Passaram apenas dois minutos de filme e já se viu uma criança a ser desfigurada. Essa perda fez com que o casal se mudasse para um novo local, a aldeia de Wakewood. Patrick arranja emprego como veterinário trabalhando para Arthur e Louise gere uma farmácia. A dor está a destruir o casal, mas Wakewood em peso esconde um segredo que descobrem acidentalmente quando o carro se avaria. A magia pagã tem o poder de ressuscitar os mortos por três dias. Se conseguirem voltar a estar com Alice, se tiverem tempo para se despedirem o futuro será diferente e por isso fazem tudo para serem aceites na comunidade e no círculo mágico. São admitidos contra a vontade de alguns elementos e vão ter o que pediram.

A história pode parecer familiar a quem se lembrar dos Creed em "Pet Sematary". Na versão irlandesa o elenco é discreto - Timothy Spall é o nome mais sonante - mas a história está bem estruturada e nem as semelhanças lhe tiram interesse. O início acelerado coloca-nos logo enquadrados com a vida familiar e o isolamento a que se remetem. Sangue vai sendo derramado em pequenas doses para recordar que não é apenas um drama. O regresso de Alice muda algumas coisas. Ao devolverem-lhes a filha devolvem-lhes a alegria e tanto Patrick como especialmente Louise estão decididos a aproveitar ao máximo esses três dias. Essa parte do filme não está tão bem contada e um bocado mais de calma só faria bem, mas o ritmo é aceitável. O desfecho chega demasiado depressa e após uma sequência de momentos amadores culmina com uma cena forte, mas previsível.

O terror com crianças como vítimas é um género que incomoda muita gente, mesmo entre os amantes de terror. No entanto a atmosfera irlandesa e a bucólica paisagem fazem com que o filme seja sempre visto com um olhar particular, como se também o espectador fosse um forasteiro em Wakewood que não tem o direito de opiniar sobre o que lá acontece. Merece um visionamento. Afinal de contas, é um dos títulos que assinala o regresso da Hammer.

Wake WoodTítulo Original: "Wake Wood" (Irlanda, Reino Unido, 2011)
Realização: David Keating
Argumento: David Keating,
Intérpretes: Aidan Gillen, Eva Birthistle, Timothy Spall, Ella Connolly, Ruth McCabe
Música: Michael Convertino
Fotografia: Chris Maris
Género: Drama, Horror, Thriller
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.thewakewood.com/

2 de Setembro de 2011

"The Violent Kind" por Nuno Reis

Se só puderem ir a uma sessão do MotelX, então a de Sexta-feira às 19 horas é a recomendada. É quando a sala maior recebe a única projecção de “The Violent Kind” e uma oportunidade única de verem um filme que dá muito em que pensar.

A própria forma de ser do filme não me permite desvendar muito da sinopse. Um gangue de motoqueiros com muito anos de estrada reúne duas gerações numa quinta longe de tudo para um aniversário. Com o avançar da noite o cansaço vence muitos deles e acabam por sobrar apenas os mais novos. Neles Q assume-se como o líder. Tem consigo a namorada Shade, Elroy e Cody. Na festa também estava Michelle, ex-namorada de Cody. Os dois evitam-se para não estragarem a festa e ela acaba por ir embora, deixando a irmã para trás. Até que regressa sozinha e coberta de sangue. Vai começar a luta pela sobrevivência, não deviam ter bebido tanta cerveja.

Nos cinco primeiros minutos há violência suficiente para justificar o título. Os primeiros minutos apontam para um filme sobre gangues e é preciso esperar um pouco até começarem a aparecer os elementos perturbadores..Quando surgem aguardam um pouco antes de entrarem em cena, causando apenas inquietação no espectador. E então finalmente começa o desbobinar de situações numa panóplia deveras completa.
É um filme que tem um pouco de tudo. Posso dizer que tem essencialmente drama e terror, mas ao longo da narrativa identificam-se momentos de comédia e de ficção-científica e o terror alterna entre slasher, gore, psicológico e religioso. É ainda uma colecção de retalhos que parecem saídos de muitos outros filmes e isso faz de “The Violent Kind” uma mistura estranha - diria que única - mas interessante. É como se Lynch e Tarantino realizassem em simultâneo e ambos aceitassem a visão do outro. Pode parecer algo impossível e não digo que seja do agrado de todos - por algum motivo a média IMDb está em 4.3 - mas há tamanha variedade de géneros e tantas surpresas do início ao fim que nem sobrará tempo para pensar e quando terminar seguramente que será discutido, para bem ou para mal.

Os Butcher Brothers reuniram alguns dos actores dos seus anteriores trabalhos e conseguiram provar que num filme independente e de orçamento reduzido se pode esperar uma história elaborada, actores competentes, efeitos aceitáveis e a banda sonora ideal. Um dos filmes de terror mais inteligentes dos últimos anos.


The Violent KindTítulo Original: "The Violent Kind" (EUA, 2010)
Realização: The Butcher Brothers (Mitchell Altieri, Phil Flores)
Argumento: Adam Weis e Butcher Brothers
Intérpretes: Cory Knauf, Bret Roberts, Taylor Cole, Christina Prousalis, Tiffany Shepis, Nick Tagas, Joe Egender
Música: Joshua Myers
Fotografia: James Laxton
Género: Drama, Horror
Duração: 88 min.

30 de Junho de 2011

"Troll Hunter" por Nuno Reis

Aqui está uma das grandes surpresas da temporada cinematográfica. O cinema norueguês além de ter aumentado a produção no último ano em 50% (devido a uma revisão simpática, lógica e generosa da lei do cinema) aumentou também a qualidade. Este “Trolljegeren” vem mostrar que também houve diferenças do ponto de vista criativo pois arriscaram-se num género que neste continente não tem tido sorte.
Troll Hunter

A mensagem ao início diz logo que foram encontrados uns discos com determinadas filmagens e que vamos ver uma selecção das mesmas. Isso num cenário normal seria suficiente para me fazer sair da sala a correr devido a umas más experiências recentes - coff, “Paranormal Activity” coff - mas como a versão europeia do cinema vérité de terror não era nada má (“REC”) foi um em que me deu para arriscar. Um grupo de três jovens está a tentar fazer uma entrevista a um caçador furtivo de ursos. Ele recusa-se a falar, mas eles seguem-no discretamente e após alguns dias subitamente estão no meio do mato com o carro destruído e coberto de uma mucosidade. O homem revela-lhes que é funcionário de uma organização governamental clandestina que controla as movimentações de trolls para os manter secretos e longe do público. O trio junta-se a essa curiosa missão para fazer o documentário mais revolucionário de sempre.
Troll Hunter

A primeira metade tem cenas que não fazem sentido numa suposta selecção de cenas importantes. A partir do momento em que aparece um troll o caso muda de figura. Aí tudo o que acontece no filme merece ser visto. Se o início é quase de apresentação das personagens e adaptação ao estilo de filme, no segundo o que importa é a acção.
Não é um filme de terror no sentido tradicional da palavra por isso não esperem descargas de adrenalina ao assistirem. Pode causar alguns arrepios a quem se quiser deixar assustar, mas o objectivo é outro, é político. Revela os números dos massacres à população troll e as mortes humanas que podiam ter sido evitadas. Mostra que alguns acidentes mal explicados podem perfeitamente ter um sentido escondido. Usando a Lâmina de Occam - a explicação mais simples tende a ser a correcta - alguns estragos e desaparecimentos com histórias muito bem fundamentadas por trás, podem ter sido algo simples como acção de trolls.
Troll Hunter

Na faceta de documentário explica as diferenças entre os trolls verdadeiros e os da lendas e histórias infantis. Não parecem humanos e não falam, mas evitam a luz que os transforma em pedra e vivem debaixo das pontes ou em grutas. Já a relação deles com a religião é deveras curiosa.
Os excelentes efeitos especiais que adicionam trolls ao vídeo amador, o recurso inteligente e doseado à visão nocturna, e as boas doses de humor pelo meio fazem deste um potencial filme de culto ao estilo de “District 9”. Claro que sequela e remake americano já se fizeram anunciar, mas nada como ver o original antes disso tudo.

TrolljegerenTítulo Original: "Trolljegeren" (Noruega, 2010)
Realização: André Øvredal
Argumento: André Øvredal
Intérpretes: Otto Jespersen, Otto Jespersen, Johanna Mørck, Tomas Alf Larsen, Urmila Berg-Domaas
Música:
Fotografia: Hallvard Bræin
Género: Comédia, Horror, Thriller
Duração: 90 min.
Sítio Oficial: http://www.trollhunterfilm.com/

29 de Junho de 2011

"Ninja Kids!!!" por Nuno Reis

Só por diversão

Quando se anuncia um filme de Takashi Miike o público sabe que tem de esperar algo de intenso e potencialmente violento. Se disserem que é um filme infantil alguém acredita? Pois é isso que temos em "Ninja Kids!!!": um Miike para crianças.
Ninja Kids

Esta é a adaptação de uma popular manga/série anime sobre alunos de uma escola de ninjas. Apesar de coexistirem num espaço vários níveis etários, neste filme vamos acompanhar os caloiros Rantaro, Kirimaru e Shinbei, miúdos acabados de chegar à escola e que não sabem nada sobre serem ninjas. Além das suas aulas sobre os princípios básicos do ninjutsu, por vezes também se escapulam para espreitar as aulas dos outros anos. Luta corpo-a-corpo, escalada, armas, explosivos, invisibilidade, armadilhas, aprende-se um pouco de tudo o que é preciso para ser um ninja. A vida na escola corre muito bem para os alunos, mas o período parece demasiado longo para os professores. O director da escola decide antecipar as férias e manda todas as crianças de férias, excepto uma que vai passar o intervalo lectivo com um professor. Alguns colegas vão visitar o amigo e depressa está a turma toda reunida. E aí é que surgem os problemas. Um dos seus colegas é de uma família que desertou do clã e esse clã procura vingança. Isso vai dar início a uma gigantesca e hilariante batalha entre todas as famílias.
Ninja Kids

É uma comédia orgulhosamente mal arranjada, recordando um clássico da infância de muitos japoneses. Os escavadores vão ter um papel fulcral no humor e o ridículo encarrega-se do resto. O constante recurso a imagens reconhecíveis de outras séries japonesas (olhos esbugalhados, ranho a escorrer, galos monumentais...) que imagino serem também do original deste, fazem com que o filme nunca seja levado a sério e por isso seja livre para ser informal. A receita funciona e apenas peca por ser demasiado longo.
Ninja Kids

É daqueles filmes que nunca sairão em cinema e dificilmente atingirão o mercado doméstico. Se não for visto em festivais a espera será bem longa por isso quem for a Neuchatel tem de aproveitar.


Nintama RantarôTítulo Original: "Nintama Rantarô" (Japão, 2011)
Realização: Takashi Miike
Argumento: Yoshio Urasawa (baseado no manga de Soubee Amako)
Intérpretes: Seishirô Katô, Susumu Terajima, Hiroki Matsukata, Mikijiro Hira, Takahiro Miura
Música: Yoshihiro Ike
Fotografia: Nobuyasu Kita
Género: Acção, Comédia, Drama
Duração: 100 min.
Sítio Oficial: http://wwws.warnerbros.co.jp/nintama/

28 de Junho de 2011

"I Saw the Devil" por Nuno Reis

Aqui está mais um título que não surpreende estar a percorrer todos os festivais do fantástico. Primeiro por ser de Kim Jee-Woon, galardoado realizador de "A Quiet Family", "A Tale of Two Sisters" e "The Good, the Bad, the Weird". Depois tem como herói Lee Byung.Hun, actor recorrente de Jee-Woon que também vai dando os primeiros passos no cinema americano (Storm Shadow em "G.I.Joe Rise of Cobra"). E finalmente como vilão tem Choi Min-Sik que além de ter sido a estrela de vários filmes passados no Fantas como "Shiri", "A Quiet Family" e "Happy End", é também o protagonista dos dois últimos capítulos da trilogia da vingança de Park Chan-Wook. Estamos a falar do senhor "Oldboy"!
I Saw the DevilI Saw the Devil

A distinção que fiz no começo entre herói e vilão não faz muito sentido. Aqui todos são maus e ninguém é bom. A história começa com uma mulher num carro que aguarda o reboque. O condutor de um autocarro escolar oferece ajuda, mas ela recusa e faz muito bem porque aqui está Kyung-chul, o nosso primeiro vilão. Será talvez dos psicopatas mais perversos que o cinema já criou. Não entrarei em detalhes para não estragar o apetite. Após mais um homicídio hediondo, Soo-hyeon, um super-agente da polícia que por acaso estava noivo da vítima, vai dar início a uma caça ao homem. A sua missão não é capturar o criminoso nem levá-lo a julgamento. Deseja simplesmente fazê-lo sofrer. Se um era sádico este é pior. O confronto entre ambos causará mortes e destruição sem paralelo e pelo caminho ainda se vão cruzar com outros tão maus como eles.
I Saw the Devil

Da primeira vez que assisti ao filme não simpatizei com ele. Reconheci-lhe o potencial para fazer furor entre os fãs do género, mas faltava nexo aos acontecimentos. Da segunda vez esse detalhe passou-me ao lado. Sabendo que apenas podia esperar violência gratuita e grandes doses de psicopatia, o filme parecia cumprir exactamente aquilo a que se propunha. Além de estar belissimamente bem feito é um exercício que desafia os limites morais do espectador. Não é para pessoas sensíveis, mas imagino que quem leu até aqui não o deve ser. Quem aguenta ver litros de sangue derramados, ossos partidos com as mãos, desmembramentos, canibalismo e violações, isto tudo alternado com pequenas doses de humor, vai com certeza desfrutar deste duelo de titãs.
I Saw the Devil

De referir ainda que foi o filme mais premiado no Fantasporto com o Prémio de Melhor Realizador na competição do fantástico, o de Melhor Filme no Orient Express e especialmente com o Prémio da Blogosfera.

Akmareul boatdaTítulo Original: "Akmareul boatda" (Coreia do Sul, 2010)
Realização: Kim Jee-woon
Argumento: Park Hoon-jung
Intérpretes: Lee Byung-hun, Choi Min-sik,
Música: Mowg
Fotografia: Mogae Lee
Género: Crime, Drama, Terror, Thriller
Duração: 141 min.
Sítio Oficial: http://www.isawthedevilmovie.com/

27 de Junho de 2011

"Stake Land" por Nuno Reis

Este filme tem uma história gira. Quando o fui ver no mercado em Cannes conhecia o nome de algum lado. Comecei a ver e parecia familiar, mas como hoje em dia há tantos filmes com o início online, não estranhei. Até que vi um vampiro a ser morto e fez-se luz. “Stakeland” tinha feito parte de uma maratona nocturna de filmes de vampiros em Sitges, apenas meio ano antes. Não era filme que merecesse segundo visionamento por isso parti.
Stake Land

Num mundo pós-apocaliptico uma espécie que tem parte zombie e parte vampiro caça os últimos humanos. Martin era um adolescente normal até ao dia em que ao chegar a casa vê um pais mortos pelos monstros. É salvo por um caçador solitário que será sempre referido como Mister e parte com ele para um mundo inóspito em busca de um paraíso a norte. Pelo caminho vão encontrando pessoas pouco ou nada amigáveis, Martin (e nós) aprende lições de sobrevivência e matam-se muitos vampiros. Pelo caminho juntam-se mais pessoas à excursão e à medida que o desfecho se aproxima entram num crescendo de medo e violência onde a religião tem uma grande parte da responsabilidade.
Stake Land

Esta produção independente rivaliza em termos de produção e narrativa com alguns dos títulos sonantes que saíram nos últimos anos. É mesmo uma das melhor sucedidas porque não se preocupa em seguir a estrutura convencional e qualquer um é dispensável a qualquer momento. Para isso ajudou o facto de ter um elenco principal sem nomes sonantes (excepto Danielle Harris que tem feito carreira em filmes de terror como a saga Hatchet e Halloween) e portanto descartáveis. Nos secundários pelo contrário ainda aparecem bastantes caras conhecidas.
Stake Land

A história é bastante completa - incrivelmente como um filme tão curto tem tanto parfa contar - e abrange um vasto leque de situações, com especial foco nos dilemas religiosos e no fanatismo. No entanto é demasiado específica para os amantes do género e quem estiver à espera de monstros, sangue e mortes visualmente poderosas terá uma pequena desilusão. Muito do terror acontece na escuridão e na verdade o maior dos monstros é o instinto humano de sobrevivência do indivíduo e de exploração do próximo.

Stake LandTítulo Original: "Stake Land" (EUA, 2010)
Realização: Jim Mickle
Argumento: Jim Mickle, Nick Damini
Intérpretes: Nick Damini, Connor Paolo, Danielle Harris, Kelly McGillis, Sean Nelson
Música: Jeff Grace
Fotografia: Ryan Samul
Género: Terror
Duração: 98 min.
Sítio Oficial: http://www.stakelandmovie.com/

26 de Junho de 2011

"Shivers" por Nuno Reis

Hoje em dia Cronenberg pode ser um realizador de culto cujos filmes todos correrão a ver,mas houve um tempo em que também ele era um desconhecido. O canadiano só se aventurou no cinema depois de concluir os estudos em literatura. Mesmo com muita experiência em TV o clássico gore “Shivers” só se tornou possível com a colaboração de Ivan Reitman, outro jovem acabado de chegar ao estrelato com “Cannibal Girls”.
Shivers

Cronenberg é famoso pelas cenas de nudez e em “Shivers” a carne já tinha conquistado o seu lugar. Na abertura vemos o que parece uma violação, mas na verdade é uma operação feita por um profissional. Ou o médico é louco ou a mulher teria algum problema que se desconhece. No apartamento abaixo o amante dela e a esposa tomam o pequeno-almoço. Ele está rabugento e esconde algo, um problema de saúde. A mulher marca-lhe uma consulta sem perguntar com o médico da ilha. Esta é a altura para dizer que a acção se desenrola num condomínio fechado, numa ilha particular às portas de Montreal e com todos os luxos. Começam a ser demasiadas coincidências e o médico, ex-aluno do louco que faz a tal intervenção inicial, vai investigar. Vai descobrir uma praga contagiosa que está a infectar toda a gente.
Shivers

Não é preciso muito para fazer ficção-científica. Basta uma criatura de outro mundo, uma descoberta tecnológica, ou um progresso científico. Em “Shivers” o elemento científico de ficção faz lembrar extra-terrestres, mas as vítimas assemelham-se mais a zombies. Um herói solitário, uma mulher em perigo, um labirinto vertical e um perigo desconhecido chegam para dar tema a qualquer filme. Até porque é neste mundo de nudez muito frequente, algumas criaturas obcecadas em apanhar humanos e muitos infectados com apetite por carne humana, que Cronenberg se move melhor.
Shivers

Vendo 35 anos depois seria de esperar que causasse alguns desconforto pela forma como o corpo humano é exposto, ou mesmo risos pelos fracos efeitos visuais. Na verdade funciona quase tão bem hoje como dantes. Os “zombies” funcionam como sempre funcionaram. Os efeitos visuais não são uma peça fundamental e por isso podem ser ignorados. O nudismo nos filmes de Cronenberg continua a existir pelo que os fãs não estranharão. É a prova de que para fazer um bom filme basta uma boa história e um realizador competente. Tudo o resto falhará no teste maior que é o do tempo.

ShiversTítulo Original: "Shivers" (Canadá, 1975)
Realização: David Cronenberg
Argumento: David Cronenberg
Intérpretes: Paul Hampton, Lynn Lowry, Allan Kolman, Susan Petrie, Barbara Steele
Música: Ivan Reitman
Fotografia: Robert Saad
Género: Ficção-Científica, Terror
Duração: 87 min.

25 de Junho de 2011

"Norwegian Ninja" por Nuno Reis

O traidor tornado herói

A Guerra Fria foi um período muito conturbado para a Europa. O velho continente serviu de palco a imensas movimentações clandestinas e a verdadeira dimensão da guerra de informação nunca será revelada. A Noruega em particular ficou chocada com um caso que envolvia um dos seus melhores agentes, Arne Treholt, a soldo do inimigo russo. Tendo este reino nórdico como hino uma música de nome “Sim, nós amamos este país” é fácil de concluir que esse acto chocante não foi encarado de ânimo leve. Como a melhor forma de superar os traumas é enfrentá-los, eis a forma escolhida para se rirem do que aconteceu.
Norwegian Ninja

Nesta versão ficcionada dos factos, Treholt é o homem em quem o rei deposita máxima confiança e o comandante de um grupo secreto de guerreiros ninja de elite. Numa ilha longe dos olhares dos comuns mortais, treinam-se constantemente para o confronto contra uma força militar que comete actos terroristas contra os países aliados para despertar o nacionalismo. Treholt sabe que andam todos atrás dele por isso vai reunir uma equipa com os melhores para a derradeira missão. E preparar o seu sucessor para a eventualidade de falhar e precisar de uma segunda linha. Só que neste mundo de espiões e ninjas nada e ninguém é o que parece.
Norwegian Ninja

Os filmes de espiões começam a abusar da comédia. Percebe-se a intenção de ridicularizar esta situação desconfortável/humilhante, mas para os estrangeiros a personagem Treholt não tem carisma inato e por isso o filme deveria esforçar-se em conquistá-los. A base tem algumas semelhanças com a dos Thunderbirds (excepto pelo seus escudos feng shui) e nota-se alguma influência da série, até porque foi captado com uma fotografia estilo anos 80, só que tudo depende do humor, e isso deixa muito a desejar. As piadas são todas do ridículo, não se preocupa com a construção de um fio condutor, orgulha-se de causar confusão... e com um twist mal amalhado acha que fica tudo resolvido.
Norwegian Ninja

É uma homenagem ao cinema série Z dos 80. Se viesse efectivamente dessa altura talvez parecesse melhor, mas fazer um filme fraco só porque sim não é boa política em época alguma. A ser visto por quem precisar de nostalgia.

Kommandør Treholt & ninjatroppenTítulo Original: "Kommandør Treholt & ninjatroppen" (Noruega, 2010)
Realização: Thomas Cappelen Malling
Argumento: Thomas Cappelen Malling
Intérpretes: Mads Ousdal, Jon Øigarden, Trond-Viggo Torgersen, Linn Stokke, Øyvind Venstad Kjeksrud
Música: Gaute Tønder
Fotografia: Trond Høines
Género: Acção, Comédia
Duração: 77 min.
Sítio Oficial: http://www.ninjatroppen.no/

24 de Junho de 2011

"Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame" por Nuno Reis

Quando título e sinopse não chegam

Um problema de se ir a um mercado de filmes é que quando se tem 40 salas a debitar filmes em contínuo não há tempo para pensar no que se quer ver. Faz-se um plano inicial e tenta-se não fugir muito a isso ao longo do dia. Ou seja, marca-se uns sete ou oito, assiste-se a cinco desses e uns cinco por sugestão de alguém que se encontrou ou apenas por proximidade da sala. Se sobrar tempo procura-se no programa algo com um título sonante e vai-se espreitar.
Di Renjie Detective Mystery Phantom Flame

Tenho de confessar que o título de sonoridade infantil “Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame” não era muito apelativo e foi quase por sorte que vi este elemento da selecção de Veneza.
Di Renjie Detective Mystery Phantom Flame

Podem ser feitos muitos filmes assim todos os anos em Hong Kong, mas a quantidade que chega ao ocidente é muito reduzida pelo que esses poucos parecem únicos. De todos os blockbusters asiáticos em Cannes este era o mais interessante.
Di Renjie Detective Mystery Phantom Flame

No século VII uma mulher está prestes a ser coroada Imperadora da China após anos como regente. O gigantesco Buda que constrói junto ao palácio será o monumento imtemporal do seu reinado, mas durante a apresentação do mesmo a um embaixador espanhol, um homem simplesmente entra em combustão. Os detectives oficiais entram em acção e um deles também arde. Os homens ao serviço da coroa preocupados com uma possível maldição ou um assassino indetectável não conseguem resultados e por isso a governante manda desencarcerar o Detective Dee, seu feroz opositor, mas também o melhor detective que existiu. Dee, uma assistente da regente e um detective da corte vão-se embrenhar numa aventura contra assassinos, fantasmas, maldições, e demónios interiores.
Di Renjie Detective Mystery Phantom Flame

Como seria de esperar tem muitas artes marciais, mas o ponto de destaque é que se baseia numa personagem real desse período. A China tem enorme respeito por ele e as adaptações são frequentes, contudo nunca chegaram a esta dimensão. Aqui temos um épico de duas horas onde apenas daria dois destaques negativos. A história é muito previsível (apesar de ter um desfecho inesperado) e nos efeitos visuais os barcos eram demasiado obviamente feitos por computador. Os outros efeitos visuais, os sonoros, a fotografia, as coreografias e demais acessórios da história são fabulosos. Nos efeitos especiais nota-se que se esforçaram por fazer algo bom sem complicar e sem desperdiçar dinheiro, optando quando possível por algo simples e igualmente espectacular que estúdios de Hollywood não fariam. Tem ainda muito sentido de humor e um protagonista íntegro e cheio de moral. Dá para uns momentos bem passados.

Di RenjieTítulo Original: "Di Renjie" (China, Hong Kong, 2010)
Realização: Hark Tsui
Argumento: Kuo-fu Chen, Jialu Zhang, Lin Qianyu
Intérpretes: Andy Lau, Bingbing Li, Chao Deng, Carina Lau
Música: Peter Kam
Fotografia: Chi Ying Chan, Chor Keung Chan
Género: Acção, Crime, Thriller
Duração: 118 min.

23 de Junho de 2011

"First Squad" por Nuno Reis

A Segunda Guerra Mundial pode ter terminado há décadas, mas o cinema continua a ir lá buscar inspiração. Nesta proposta asiática um grupo de adolescentes com poderes paranormais é a derradeira arma do lado soviético. Um atentado nazi causa a morte de quase todos e Nadya, a única sobrevivente, está perdida e amnésica. Quando um monge a encontra e lhe revela a importância do papel que ela terá de desempenhar, Nadya parte numa viagem ao outro mundo para convocar os amigos mortos a ajudarem-na e à Mãe-Rússia num combate desigual contra os cavaleiros teutónicos que os nazis trouxeram dos mortos.
First Squad

Um problema da Anime é que tem uma forte presença televisiva e pouco expressão em cinema. Quem não a sabe fazer e se arrisca num filme, pode não conseguir mais do que um episódio longo. Em “First Squad” passa-se quase isso. Do ponto de vista técnico o desenho está irrepreensível. A história não é inovadora e por vezes torna-se até desinteressante. Devido aos enormes combates tem um estatuto de quase épico, mas dificilmente será lembrada.
A narrativa principal é fraca, mas a animação vem intercalada (e valorizada) com alguns depoimentos de supostos especialistas na guerra paranormal. Dessa forma uma mini-série que se despacharia em dois episódios de meia hora acaba por se alongar por mais um quarto de hora. O valor acrescentado vem de com esses “especialistas” ganhar um toque documental e consequentemente uma pseudo-veracidade. Como foi dito na crítica de ontem, quando o fantástico (ontem era específico do terror) se aproxima do mundo real, a mente torna-se mais receptiva.
First Squad

Esta guerras que se desenrolam clandestinamente, em paralelo com a guerra de superfície que normalmente é a Segunda Mundial, são tema recorrente. Já foram criados em laboratório exércitos de lobisomens, de zombies, o Red Skull e o Capitão América, e muitos outros. Atingiram o pico com Hellboy onde foi mostrado tudo o que podia ser feito. Tudo o que veio depois teve de ser original (“The Man Who Stare at Goats”) para não estar sujeito à comparação.
O mais interessante é o facto de ser uma co-produção Canadá-Japão-Rússia. Este produto inter-cultural tem dinheiro canadiano, uma história russa, animadores japoneses, até um nome português aparece na ficha técnica. Além disso foi o filme que ganhou o primeiro Inspirational Award no Fantasporto e por isso convém manter debaixo de olho.

Fâsuto sukuwaddoTítulo Original: "Fâsuto sukuwaddo" (Canadá, Japão, Rússia, 2009)
Realização: Yoshiharu Ashino
Argumento: Aljosha Klimov, Misha Shprits
Intérpretes (vozes): Elena Chebaturkina, Aleksandr Gruzdev, Sergei Aisman, Rudolf Pankov
Música: DJ Krush
Fotografia: Sergey Akimov, Aleksandr Aleshnikov, João Da Costa Pinto, Kumiko Sakamoto
Género: Animação, Acção, Drama, Fantástico, Guerra, Histórico
Duração: 73 min.
Sítio Oficial: http://www.first-squad.com/

22 de Junho de 2011

"Secuestrados" por Nuno Reis

Não recomendado a pessoas sensíveis

O dinheiro pode não comprar segurança, mas compra uma moradia num condomínio seguro. Pelo menos foi isso que uma família pensou quando se mudou para um luxuoso condomínio madrileno. Na primeira Marta e Jaime querem um jantar em família para festejar a casa nova, enquanto a filha Isa quer sair para se divertir como noutro dia qualquer. Subitamente o vidro é quebrado e três assaltantes invadem a casa. A família é manietada e Jaime é levado por um dos sequestradores para levantar todo o dinheiro possível. Enquanto isso as mulheres terão de lidar com os outros dois.
Estes dois jogos de nervos em paralelo vão fazer as vítimas desesperar e os criminosos vão ficando nervosos. Acrescentando ainda uma pequena barreira linguística (tornou-se moda o criminoso ser de Leste), são seis pessoas que não se aguentarão muito mais.
Secuestrados

A cada ano três milhões de domicílios europeus são invadidos, por vezes com violência para com os habitantes. É por isso que este terror do real tem estado tão em voga no cinema (basta pensar em “Eden Lake”, “The Disappearance of Alice Creed”, “Cherry Tree Lane”). Porque é fácil fazer algo assustador sem ser criativo, e porque se for real o espectador não tem como escapar ao medo. Não há a desculpa “isto é só um filme” porque não é. Algures está a acontecer o mesmo e não é preciso ser um psicopata saído do cinema para maltratar muitos inocentes.
Em “Secuestrados” o thriller está sempre presente. A narrativa tem uns momentos aborrecidos, mas para compensar os momentos fracos, os pontos fortes são dos bem gritantes. Nenhum memorável, mas alguns bem desfrutáveis e o som encarrega-se de dar a atmosfera adequada.
Nestes 85 minutos Vivas raramente tenta inovar, aplicando uma receita fácil numa história aterrorizadora. Por exemplo, o momento em split screen, acompanhando interior e exterior, é um dos pontos altos que o filme tem. O problema é que espectadores regulares da série “24” devem estar fartos disso.
Secuestrados

O filme tem apenas seis personagens constantes e outras quatro de situação. Nota-se que se baseiam em estereótipos o que é uma pena. A excepção é a personagem discreta de Manuela Vellés, tanto é uma adolescente revoltada, como está em pânico ou em choque. Demoramos a reparar nela e quando finalmente tem a nossa atenção... acabou.

SecuestradosTítulo Original: "Secuestrados" (Espanha, 2010)
Realização: Miguel Angél Vivas
Argumento: Javiar Garcia, Miguel Angél Vivas
Intérpretes: Fernando Cayo, Ana Wagener, Manuela Vellés, Dritan Biba, Guillermo Barrientos, Martijn Kuiper
Música: Sergio Moure
Fotografia: Pedro J. Márquez
Género: Thriller, Horror
Duração: 85 min.
Sítio Oficial: http://www.kingrecords.co.jp/spain/

21 de Junho de 2011

"Hobo With a Shotgun" por Nuno Reis


Hobo é um termo muito único da cultura americana. Refere-se a um tipo particular de sem-abrigo porque, ao contrário dos vagabundos, o hobo procura trabalho. É como se fosse um trabalhador migratório que opta por não ter casa para ter maior liberdade. Neste filme em particular - tal como “Machete” nascido dos falsos trailers “Grindhouse” - o nosso hobo (Rutger Hauer) chega a uma cidade de comboio. Ele sonha comprar um cortador de relva para se dedicar exclusivamente a esse negócio. O que vai encontrar é apenas decadência. Gangues, drogas, prostituição, pedofilia, roubo, há crimes para todos os gostos. Os hobos são usados e maltratados, mas pior do que tudo isso é a organização criminosa de Drake. Ele é a lei de uma cidade sem lei e entre ele e os filhos é difícil escolher o mais malvado. O nosso herói anónimo assiste a tudo sem que lhe prestem atenção. Até que para ajudar uma prostituta decide intervir e começa uma carnificina sem igual. A única forma de combater o crime é sendo pior do que eles e para isso uma caçadeira é uma boa forma de começar a vingança.
Hobo With a Shotgun

Rutger Hauer é um nome de culto para os fãs do cinema fantástico. Depois de uma brilhante carreira neerlandesa e de uma personagem inesquecível em “Blade Runner” também experimentou a realização. Ser um vagabundo num trailer pode ter sido uma piada, mas repetir a personagem numa longa-metragem obriga-nos a acreditar que o projecto seria convincente. O argumento não tem muito nexo, a fotografia é apelativa e as personagens são loucas. Há situações tão inacreditáveis que podem ser verdadeiras e outras demasiado inverosímeis. As mortes são extremamente criativas (a tal ponto que uma mesma forma de enforcar as pessoas é repetida três vezes num minuto e continua a ser genial), os vilões odiáveis e os heróis imunes a tudo que lhes façam.
Hobo With a ShotgunHobo With a Shotgun

No seu todo é um filme simplesmente indescritível que um espectador solitário terá dificuldades em achar interessante. No entanto em ambiente de festival tem todo o sangue e humor necessário para proporcionar uma sessão inesquecível. Alguns filmes exigem a companhia certa. Para este filme essa companhia são quinhentas pessoas que delirem com uma boa perna cortada pela lâmina de uns patins, uma cabeça arrancada com arame farpado, pescoços cortados por serras (não eléctricas), caçadeiras de apenas dois tiros e multidões enraivecidas. Não se podia pedir melhor como última sessão da noite.


Hobo With a ShotgunTítulo Original: "Hobo With a Shotgun" (Canadá, EUA, 2011)
Realização: Jason Eisener
Argumento: Jason Eisener, John Davies, Rob Cotterill
Intérpretes: Rutger Hauer, Molly Dunsworth, Brian Downey, Gregory Smith, Nick Bateman
Música: Adam Burke, Darius Holbert, Russ Howard III
Fotografia: Karim Hussain
Género: Acção, Terror
Duração: 86 min.
Sítio Oficial: http://www.hobowithashotgun.com/